sábado, 14 de outubro de 2017

daqui de dentro

fechei porta
e janela
então abri
meu coração
e te deixei
do lado
de dentro
da casa
de mim

através

da janela
pensei ter te visto no telhado de uma casa
mas não era
olhei de novo e vi uma antena branca
em um fundo cinza
de uma equivocada primavera

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Término

O encerramento do sexto ano se aproxima. Escrevo sobre quinze de janeiro. Há seis anos. Havia uma garota que recém tinha terminado o ensino médio. Havia resquícios de rebeldia. Marcas da infância. Problemas de personalidade sob um invólucro de poucas palavras e de muita observação. O relógio foi rápido e os calendários narraram seus dias. O tempo foi justo. As letras modeladas descobriram o que estava encoberto por duas décadas. Este espaço foi um jogo pessoal de revoluções mentais. Seis anos em guerra contra faunos: a mulher venceu sua escrita. Ela eclodiu em uma luz transcendental. Os projetos se amplificam e se tornam coisas reais. A realidade vem em um folk antigo. Descasquei-me e me vi nua em um retrato futurístico. Li meu nome em voz alta. Cerrei as pálpebras por seis segundos, abri e percebi o dezessete se metamorfosear em um vigoroso vinte e três. Pensei como Alejandra Pizarnik: observei aquela outra e fitei a de agora. Aceitei-me: exótica, excêntrica e mulher. Perdoei-me. A vida está me guiando por um novo caminho. A jornada é tranquila. Submeti-me ao processo e com ele chegarei ao topo da montanha sagrada para apanhar minhas estrelas e guardá-las no bolso do meu jeans desbotado. O desenho de um olhar nos meus olhos sob grossas sobrancelhas escuras e a palidez da tez sobre o cálido sangue não mudaram. A mudança se esconde em partes impossíveis de serem vistas, mas é perceptível. A franja e os óculos estão aqui, mas o blog cumpriu sua promessa e adormecerá no universo internético. Se você me lia, não mais me lerá. Talvez em um janeiro futuro, talvez nas páginas de um manuscrito. Até mais, caos eterno. Agora que sou outra já não tenho medo que isto acabe. Vamos à história dos subúrbios, leitor. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Poema ao mar II: caixinha de correspondência

aqui não chega o mar
tem areia nas paredes
mas no sal não há vermelho
pacífico morto
reviro-me no quarto
do baú ao espelho e
busco cartas de
doçuras escritas
aflita
escrevo sobre a falta
que faz a praia
no inverno e na casa
caixinha de correspondências
vazia
não confio em quem
da costa
não escreve cartinhas de amor
cheias de areia
de sal
de sol
à amada que morre
por amar seu amor
do mar

Poema ao mar I: caixinha de música

o silêncio criado se vai
pelo vão da porta
entreaberta
o som da caixinha de música
se esvai pela vidraça quebrada
coberta
por uma cortina de flores
margaridas brotaram do lado
de fora da velha cabana
não há sonoridade nos cômodos
não há silêncio nos aposentos
estranho silente sonoro
desmonta quarto e cozinha
vazia se nota a mesa
o assoalho apaga marcas
de botinas sujas de terra
os homens se foram
foram ao mar vender
seus dias restantes
seus restos de homens
sobre eles não se fala
nessa família de mulheres
fêmeas pariram sozinhas
meninas cresceram sem sonhos
de serem mulheres
de famílias
de homens
do mar
marinheiros se vão
ao porto embarcam
não retornam às margaridas
de suas cabanas antigas
onde estranhos silentes sonoros
desmontam caixinhas de música
das meninas sem sonhos

sábado, 2 de janeiro de 2016

vida violeta: ela acrônica

enquanto crianças corriam pelo gueto de varsóvia
mortas de medo do tempo e sem ar nos pulmões
viu-se uma carta de luz narrar a vida acrônica de
uma jovem que subsiste em um futuro violeta

ouvindo canções perdidas de mãeana a radiohead
umedecendo seus olhos mpb e seus lábios rock’n’roll
ama páginas marcadas costuradas no corpo celeste
e conta os astros que revelam segredos do cosmos

dizem que noutra época a moça se perdeu com
deuses do monte olimpo e por isso acabou presa
num tempo inundado de pessoas sem quimeras
e teve de se contentar com estórias em tela plana
                                                                                    
há relatos de que ela foi a primeira a furtar livros
da biblioteca cardíaca do último condado fantasma
da primeira nação oxidada do universo luminoso
deixando sem peso as estantes de árvores mortas

sabe-se por aí que ela corre e tenta alcançar o real
mas um vento de cores frias não a deixa sair de seu
intelecto utópico e assim sua voz continua soando
como clair de lune para as audições mais raras

ela revive seus dias de outrora e se percebe entre
flores mitológicas numa terra cintilante em que
há o celestial nos sentimentos e o sexo tântrico
é comum entre os amantes e seus corpos poéticos

enquanto os pequeninos de varsóvia se perdiam
pelo gueto e dormiam pensando em suas mães
a carta de luz ensinou a eles a capacidade humana
de sonhar e de desejar a vida numa vida melhor